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Quarta-feira, Março 31, 2004
CIGARRO DE PALHA
[Eberth Alvarenga](*)
Bigode chamuscado,
dentes de esmalte amarelo,
azulejos encardidos
de nicotina.
Baforadas simples,
aromadas,
paieiro
com fumo de rolo,
arrancado das montanhas
de pedra - sua hierarquia.
O canivete,
cabo de osso, fio
na pedra - cortes exatos;
dedos afeiçoados
acomodam milímetros,
gosto-tempo
de passar sentado
numa fagulha de isqueiro.
Uma orelha de mineiro
(mais que ouve)
guarda, o que fica,
pra depois.
(*) Eberth Alvarenga nasceu em Belo Horizonte, na safra de 1950. Vive em Lavras. Escreve desde a década de 80, mas só em 2002 o primeiro livro, ''Desafins'' (leia resenha de Edimilson de Almeida Pereira), foi lançado pela Scriptum Livros.
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15:49
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Segunda-feira, Março 29, 2004
da série ''Os armengueiros dão as caras''...
MALDIÇÃO EM VILARINHO BATUQUEIRA
Juarez Gonçalves/divulgação
[Wir Caetano]
Dizem uns caras por aí que sou um dos ''novos malditos'', herdeiros de Charles Bukowski e John Fante. Dizem ainda que, por uma estranha mutação genética, esses herdeiros se jogam na lama em busca de fama e dinheiro. Novo maldito? Acho que não sou. Mas parece que essa foto aí em cima, tatuada em meu livro ''Morte Porca'', depõe contra mim, apesar de nem ter sido tirada nos cubículos de linguiça e cachaça com limão da av. Vilarinho, no coração do distrito belo-horizontino de Venda Nova, onde se encrava o simpático bairro São João Batista, meu lar. Fazer o quê? Então, só me resta aguardar fama e dinheiro. Com impaciência.
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08:57
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Domingo, Março 28, 2004
''MÁQUINA...'' PRONTA PARA ATACAR
[do Balaio]
Versos no papel, livros empunhados. Assim, o poeta e ensaísta Ricardo Aleixo, o domador do Jaguadarte, parte pra mais um lançamento na noite desta segunda-feira, 29, no Palácio das Artes, em Belô. O tão esperado ''Máquina Zero'', de que o A.P. teve privilégio e prazer de publicar dois poemas (leia ''Confidência'' e ''Dois exercícios de língua pária''), acaba de sair da base da Scriptum Livros.
Laroyê abre o caminho e Rique segue no ataque-odara (é ou não é, poeta?). Então, se ligue aí!

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04:18
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Sexta-feira, Março 26, 2004
[Regis Gonçalves] (*)
Um nascimento ocorrido em circunstâncias obscuras; um pai, verdadeiro ou suposto, de caráter equívoco; uma mãe passiva e simultaneamente possessiva; infância e juventude marcadas por insolúveis conflitos e ambigüidades; um meio social conservador e devasso; uma vida adulta traduzida em anomia e crises recorrentes de identidade; uma carreira construída a golpes de oportunismo e fraude. São esses os ingredientes definidores da personalidade de um certo Samuel, anti-herói quase macunaímico que protagoniza "O Falso Mentiroso", mais recente romance de Silviano Santiago, com lançamento programado para breve, pela Editora Rocco.
Escrito em forma de memórias que se desenrolam ao longo de 13 capítulos sem título, o livro é um relato autobiográfico em que se confundem e se entrecruzam as muitas "personas" assumidas pelo narrador. O diálogo que este, Samuel, estabelece com o leitor, sempre chamado às falas, comporta elementos tanto de veracidade quanto de dissimulação. Como num jogo de esconde-esconde, que o autor, Silviano Santiago, propõe seja jogado com a necessária cumplicidade das partes.
Tudo começa numa maternidade, com o nascimento do menino, cujo nascer assinala também a primeira das muitas contradições de sua vida e o enigma de seu destino: a troca de pais. A mãe verdadeira, biológica, deixa logo de sê-lo, pois o recém-nascido lhe é subtraído por uma enfermeira que sub-repticiamente o conduz à residência de uma família abastada. O casal, estéril, registra a criança como sua, mas altera a data de nascimento.
Samuel, bebê adotado e dotado de uma espécie de pré-ciência dos fatos, registra desde então os momentos iniciais de sua existência e os sentimentos ambíguos sobre sua origem e identidade. O lugar especial que ele passa a ocupar no lar do doutor Eucanaã e sua mulher, Donana, resulta de um arranjo implícito entre os pais adotivos: ela satisfazendo seu desejo de maternidade e ele dando solução à incômoda existência de um bastardo que provavelmente gerara com uma de suas amantes.
Menino mimado, nosso herói logo revela o lado perverso de seu caráter, comprazendo-se, pequeno vampiro, em abocanhar os braços roliços de uma prima da mesma idade, nos quais deixa a marca de seus dentinhos afiados. Uma primeira lição de sádico prazer. Desde cedo, o olhar do garoto sobre o mundo reproduz atmosfera moral que o cerca e que imprime ao seu comportamento a marca da cupidez e da sacanagem.
Nessa circunstância, destacam-se como paradigmas a dupla personalidade profissional do pai (falso? verdadeiro?), que ganha dinheiro em um negócio escuso no subúrbio, enquanto mantém as aparências de uma honrada advocacia em banca (na verdade uma garçonière) no centro da cidade; e a passiva cumplicidade da mãe (falsa), que preenche submissa o lugar de esposa burguesa, beneficiária da condição econômica privilegiada da família.
Samuel também usufrui os confortos e privilégios dos filhos da classe abastada e como tal é matriculado em um dos mais afamados colégios do Rio de Janeiro. Lá se defronta com o doloroso processo de socialização e autonomização próprio dos adolescentes, com seus jogos e artimanhas. Vincula-se então a uma confraria de peidorreiros que tem como campeão e líder Zé Macaco, bolsista negro do colégio granfino, que logo se torna seu mestre.
Nas suas escaramuças juvenis, ao descobrir a homossexualidade de Zé Macaco e o próprio desejo pela namoradinha surda e pela ''secretária'' do pai, Samuel experiencia o xadrez das ambigüidades humanas, em que sexo, prazer e poder caminham sempre próximos um do outro. E vê desfilarem diante de si exemplos dos piores comportamentos morais. A começar pelo do próprio pai (falso), que joga pesado para garantir o êxito econômico e social.
O tom debochado da narrativa, que o autor intencionalmente buscou no gênero picaresco celebrizado pela literatura espanhola, se ajusta como luva ao tema escolhido por Silviano Santiago. Ele se serve de uma escrita livre e "desbocada" para recontar, através das memórias de Samuel, um capítulo paradigmático da história sexual do Ocidente: o dos percalços da invenção, ascensão, queda e reabilitação da camisinha de Vênus, o preservativo mais popular de todos os tempos.
Uma tal história, cheia de mentiras, trapaças, hipocrisias e licenciosidades só poderia mesmo ser contada por um mentiroso exemplar, mais precisamente um falso mentiroso. Aquele que, segundo o lógico grego Euclides de Mileto (séc. 4 a. C), quando afirma que mente e diz a verdade, faz uma afirmação falsa; ou, quando a afirmação que faz é verdadeira, então é falso que seja mentiroso.
O fio desse imbróglio vai sendo desenrolado num período da História em que o Brasil vivia sob a ditadura Vargas, o tema do sexo era cercado de tabus e a transgressão nesse campo exclusiva de adultos do sexo masculino. Doutor Eucanaã era rico e amoral, mantinha um rol de amantes e fazia fortuna como fabricante de camisinhas, que exporta através de contrabando. Para garantir o êxito de seus negócios - cuja titularidade não admitia publicamente - comprava a opinião de médicos e os favores das autoridades, em relações socialmente tão promíscuas quanto as favorecidas pela camisinha, no plano sexual.
Seus ídolos, o economista clássico inglês Thomas Malthus (1766 - 1834), prenunciador da catástrofe demográfica, e o anatomista italiano Gabriel Falópio (1523 - 1562), idealizador do primeiro preservativo masculino, precursor da camisinha - a proteção do falo permissivo.
Enquanto o filho crescia mentindo à família sobre seus verdadeiros interesses acadêmicos e profissionais (fingia estudar arquitetura e direito, enquanto cursava belas artes), Eucanaã enricava a golpes de audácia e rasteiras nos adversários e concorrentes. Ambos, pai e filho, moralmente ambíguos.
E tudo ia bem até que, com o advento da 2a Guerra Mundial - para cujo teatro o Brasil mandava seus "pracinhas" levando nas mochilas estoques de camisinhas do doutor Eucanaã - o pesquisador inglês Alexander Fleming (1881 - 1955) veio mudar o curso da terapêutica médica com a introdução da penicilina. Infecções, inclusive as venéreas, passam a ser curadas com o novo e milagroso medicamento, liberando comportamentos. A indústria de preservativos quebra e a família de Eucanaã experimenta a quase-miséria. O tempore, o mores, exclamaria de seu túmulo renascentista o erudito Falópio.
Mas, a essa altura, Samuel já artista de sucesso, ficara rico graças à falsificação sistemática dos mestres da pintura, brasileiros inclusive. Para "chegar lá", o falsário desenvolvera, em proveito próprio, uma sofisticada argumentação sobre a obra original e a cópia e uma teoria sobre a legitimidade da falsificação. Que obviamente põe em prática com êxito comparável ao do pai nos negócios. E por que não falsificar, já que nem ele mesmo tinha garantia ou certeza de sua autenticidade individual?
Silviano Santiago lança ainda outros condimentos a essa salada ao adotar um estilo artificialmente construído a partir da "cópia" de um gênero canônico da história da literatura e portanto contemporaneamente "fora de lugar"; ou ao fazer referências a clássicos do gênero ficcional-memorialístico, como Machado de Assis ("As memórias póstumas são de um eu sem fendas. Não estas"); ou ainda ao assumir, ora o coloquial escrachado ("Papai ficou tiririca com o liberou geral do ministro"), ora o tecnológico contemporâneo ("Meu disquete de vida seria formatado pelo software dele").
Nessa história marota, que tematiza problemas tão graves (não se diz que até mesmo num pornógrafo existe um propósito moral?), o humor é ferramenta que serve tanto para satirizar quanto para invectivar a hipocrisia humana, as convenções sociais, as desigualdades de classe e as misérias morais de todos os tempos. Um escopo bem próximo dos clássicos do gênero adotado como modelo pelo autor.
Complicando ainda mais o quebra-cabeças identitário, em que a certa altura ele próprio se coloca como uma das peças (atribuindo ao personagem seus próprios dados biográficos: nome dos pais, local e data de nascimento), Silviano Santiago recheia a narrativa de citações mais ou menos explícitas, mas sempre bem-humoradas. Lá estão, por exemplo, figuras como a do cirurgião plástico "doutor Pitanga" e a pintora Yara Tupinambá, que tem sua assinatura assumida pelo falsificador em painel (realmente existente num edifício de Belo Horizonte) cuja autoria ele se atribui.
Nesse cipoal lógico-narrativo é um desafio identificar as diversas vozes que se manifestam e se entrecruzam - autor/ narrador/ personagem/ artista/ escritor/ memorialista. Contudo, tal como na teoria econômica clássica, uma "mão invisível" autoral está sempre presente. Samuel/Silviano, que sintomaticamente adota como mentor um Mário (de Andrade?), quanto mais esconde, mais mostra a cara. No caso do escritor, a de um alquimista do estilo, que brinca com as palavras com a sabedoria de quem, respeitando sua magia intrínseca, as põe e dispõe a serviço de suas idéias literárias.
Em tempo: profético, o doutor Eucanaã de Souza Aguiar, falso pai falso, que defendeu até a morte (inglória) suas idéias de saúde, higiene sexual e lucro fácil através da camisinha, foi enfim reabilitado com a epidemia causada pelo HIV. Se vivo, talvez pudesse comemorar, ao lado do filho (falso?) com uma risada a que certamente acrescentaria, parafraseando seu criador: "Sou o mais original dos impostores".
(*) Regis Goncalves é jornalista, poeta e cronista. Tem três livros publicados e dois inéditos (poesia), um deles, "Candongas d'Amores", a sair este ano pela editora Ciência do Acidente. Vive em Belo Horizonte. Resenha publicada originalmente no jornal belo-horizontino "O Tempo", em 20/3.
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SERVIÇO:
Divulgação
''O Falso Mentiroso''
Silviano Santiago
Editora Rocco
222 páginas
R$ 27.
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Quinta-feira, Março 25, 2004
NEGRO, NEGRO, NEGRO: TRÊS LANÇAMENTOS
[George Cardoso]
Três livros. Três obras que reúnem atividades que incentivam o conhecimento das contribuições dos negros na formação de Minas Gerais e do Brasil. Neste sábado, 27, a Mazza Edições lança ''Assim se Benze em Minas Gerais'', ''Bonecas Negras, Cadê?'' e ''Os Comedores de Palavras''.
Dentre as novidades, ''Assim se Benze em Minas Gerais'' de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes, morta em 1994, está sendo relançado em edição revista e ampliada. O livro, que teve a primeira edição em 1989, é o resultado de uma pesquisa de campo sobre a cura através da palavra, em que os próprios devotos dão depoimentos sobre a complexidade dos rituais de cura, revelando os caminhos dessa prática sagrada.
''Bonecas Negras, Cadê?'' é o registro do estudo da professora Maria Zilá Teixeira de Matos, que traz sugestões de como inserir o negro no currículo escolar, por meio de atividades que valorizam a contribuição étinica, cultural, histórica e econômica dos afrodescendes na formação da identidade nacional. Preconceitos são questionados com a intenção de preparar o jovem para dialogar e se posicionar com relação ao racismo, por meio de argumentos científicos, éticos e jurídicos.
Já ''Comedores de Palavras'', livro infanto-juvenil de Edimilson de Almeida Pereira e Rosa Margarida de Carvalho Rocha, com ilustrações de Rubem Filho, coloca os pequenos e grandes leitores no universo dos ''griot'', como os africanos chamam os contadores de histórias, considerados sábios e respeitados na comunidade em que vivem.
A narrativa retrata um velho costume em aldeias africanas. Sentados à sombra de árvores, ou em volta de fogueiras, os griot passavam de geração em geração as tradições por meio da oralidade.
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Serviço:
Local dos lançamentos: Livraria do Ouvidor (rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi, Belo Horizonte)
Data: 27/03
Horário: a partir das 11 horas
O Trio da Mazza Edições:
Divulgação
''Assim se Benze em Minas Gerais''
Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes
390 páginas
R$ 40
Divulgação
''Bonecas Negras, Cadê?''
Maria Zilá Teixeira de Matos
78 páginas
R$ 20
Divulgação
''Os Comedores de Palavras''
Edimilson de Almeida Pereira e Rosa Margarida de Carvalho Rocha
19 páginas
R$ 12
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Segunda-feira, Março 22, 2004
A EPOPÉIA POP DE ZÉ AGRIPPINO DE PAULA EM ''PANAMÉRICA''
[Wir Caetano]
- da série "Resenhas Requetadas". Texto publicado originalmente no jornal belo-horizontino "O Tempo", em 2001, ano em que foi reeditado o livro lançado em 1967.
Em fins dos anos 70, a imprensa foi tomada pelo termo ''literatura pop'', na esteira do sucesso do livro de contos ''A Morte de DJ em Paris'', de Roberto Drummond, vencedor do ''Concurso de Contos do Paraná''. O enxame de referências a ícones da cultura de massas ganhou a galerinha crítica de então. Bom, não era novidade. Em 1967, um épico já deglutira o ''imageário'' pop de forma radical: ''PanAmérica'', de José Agrippino de Paula, que circulou em poucas mãos até seu autor cair no esquecimento (se é que fora lembrado alguma vez fora do círculo restrito de figuras afeitas à contracultura). E mesmo antes desse livro, as pegadas já estavam em seu ''Lugar Público'' (1965).
Não é de se estranhar que Zé Agrippino tenha ficado à margem da margem. ''PanAmérica'' é como ''Ulisses'' de James Joyce: cita-se por aí, não se lê. Essa antilira paulistana, em sua terceira edição, agora como parte de um projeto da Editora Papagaio, de São Paulo, criada especialmente para divulgar a produção de Zé Agrippino, é uma arquitetura de capítulos sem parágrafos, um grande fluxo carregado de pormenores guiados por um Eu reiterativo, cinematográfico: ''Eu falei com o piloto do meu helicóptero apontando o caminhão de gasolina, e o helicóptero fez uma manobra sobre o caminhão-tanque e pousou alguns metros adiante. Eu saltei do helicóptero e gritei para o enorme negro que verificava o lança-chamas: ''Hei!'' Eu perguntei a ele como estava o lança-chamas para funcionar como coluna de fogo''.
Na longa epopéia em que tudo está na superfície, como as imagens chapadas de Roy Lichenstein e Andy Warhol, o Eu reiterativo transita pelo capitalismo onipresente, o colosso americano opulento e caótico. O Eu reiterativo dirige a megaprodução hollywoodiana ''A Bíblia'', estrelada por Burt Lancaster, vive uma tórrida ''love-story'' com Marilyn Monroe, deleita-se em orgasmos com soldados jovens no quartel, metralha outros soldados em guerrilha na selva venezuelana, esmaga os testículos de Joe Di Maggio, dá golpes de karatê em militantes da Klu Klux Klan, vive sequências psicodélicas de sangue e escatologia onde a Estátua de Liberdade grita e esmaga multidões e em que bombas de Napal queimam o povo. Apocalipse de São João num Oldsmobile conversível. Um Homero São Jorge Guerreiro.
Há quem veja laços entre Zé Agrippino e Glauber Rocha, mas as imagens de ''PanAmérica'' não têm o estrato alegórico do Cinema Novo. São, isso sim, meta-signos que apontam para o cinema udigrudi - ele, por final, fez um filme nesse terreno, ''Hitler 3º Mundo -, numa poética da mixagem. Mixagem, mixórdia: técnica e brutalismo. Aplica-se muito bem à literatura de Zé Agrippino o comentário feito por ele mesmo sobre suas incursões no teatro-dança, no grupo ''Sonda'', ao lado de Maria Esther Stokler, com quem fez ''Tarzan 3º Mundo'' e ''Rito do Amor Selvagem'': ''O processo de trabalho do Sonda poderia ser chamado de mixagem. Mixagem é o termo usado em cinema que significa a mistura de várias faixas de som - os diálogos, os ruídos e a música. As três faixas de som reúnem-se e completam a imagem do filme. No nosso laboratório de dança e teatro, o processo é o mesmo. Qualquer uma das faixas - o cenário, iluminação, elemento de cena, coreografia, figurino - podem, isoladas, ocupar o primeiro plano''.
Antropofagia, Tropicalismo
''Oswald de Andrade disse tudo. Agora, temos que viver o que ele disse''. Essa afirmação de Zé Agrippino, citada por Caetano em jornal dez anos após ''PanAmérica'', é um dos sinalizadores da estrada em que o autor do romance pôs os pés para produzir seu caldo literário: o canibalismo simbólico que reúne o ''bárbaro e nosso'', velhos produtos de tradição, novos projetos de ruptura e os repertórios técnico-póeticos engendrados no cenário da produção de massa. Em seu livro de memórias ''Verdade Tropical'', Caetano Veloso comenta que a leitura de Zé Agrippino quase inibiu por completo seus projetos que iriam, pouco depois, conformar seu cancioneiro tropicalista. Ele relembra esse depoimento no prefácio que escreveu para essa edição (o primeiro foi assinado pelo físico Mário Schenberg).
Veloso, por sinal, viria a deixar entrever essas ''panaméricas de áfricas'' mesmo em suas fases pós-tropicália. Ao lado de Gil, musicou trecho do livro de 67: ''Eu e ela estávamos ali encostados na parede/ Ela estava em silêncio e eu estava em silêncio / Eu sentia o corpo dela junto ao meu / Os dois seios, o ventre, as pernas e os seus braços me envolviam'' e por aí vai. Também é possível notar reverberações agrippianas em canções como ''Eu disse, Ele Disse'', por exemplo.
Não só os tropicalistas baianos beberam na fonte. Gerações mais novas também tiveram seu flerte com o velho Homero paulista. O poeta Ademir Assunção vê presenças panamericanas em ''Sexo'', de André Sant'Anna e tem razão. E elas se fazem também ouvir em outros novíssimos canibais. Novíssimos, pouquíssimos.
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SERVIÇO:
Divulgação
''PanAmérica''
José Agrippino de Paula
Editora Papagaio
264 páginas
R$ 25
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13:55
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Quinta-feira, Março 18, 2004
ESTAR VIVO
em memória de Hilda Hilst
[Flávio Boaventura](*)
Na lona mirando La Luna
Ser Enviesado tem me custado
Correntes de vento
Diatribes de pensamentos
Razão Ardente de Appollinaire
Me foge a calma me foge
Só sei ser desabrido em corpo e dentes
Pura Chama mordo o Êxtase por Inteiro
O Êxtase por Inteiro
O Êxtase
Adrenalina compulsório-compulsiva
Irreverência fulminante
Flor sangüínea do pântano Eterno Instante
Sapo pulando coaxando pulando faminto
De brejo em brejo tal qual seu instinto
Coaxando hinos à noite coaxando
Mil frêmitos mil gozos
Mil e uma outras noites pulsando gozozas
Na lona mirando La Luna
Mirando La Luna
Mirando
Un poco más pero mucho más incierta
Do que este pecho abierto
Alegre y nómada corazón de poeta.
(*) O mineiro Flávio Boaventura é poeta, autor de "Delírio Trêmulo"( 7 Letras, 2003), letrista e professor de filosofia e de ética na PUC-Minas.
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13:05
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Terça-feira, Março 16, 2004
O escritor juizforano, Édimo de Almeida Pereira, apresenta-nos um ensaio sobre a literatura de autoria feminina, em que traça reflexões que incluem o pensamento de Simone Beauvoir e de escritoras contemporâneas, além da leitura de dois contos de Márcia Carrano, da cidade mineira de Cataguases. Confira, logo abaixo, fragmentos deste ensaio. Puxe a cadeira e boa leitura!
MULHERES INTERDITADAS
Reprodução
''Antropofagia'' de Tarsila do Amaral, 1929
[Édimo de Almeida Pereira] (*)
No longo percurso até então atravessado pelas mulheres na militância pelo reconhecimento de seus direitos numa realidade regida pela lógica machista do patriarcado, a formação de um pensamento e a enunciação de discursos preocupados em estabelecer e recriar uma nova imagem para a mulher, bem como em lhe assegurar a conquista de espaços dignos na estrutura social contemporânea, têm sido uma constante. Já em 1949, Simone Beauvoir questionava o descompasso existente entre a concessão do direito de voto às mulheres (o que teria implicado num estado de liberdade cívica para as mesmas) e a paradoxal dependência econômica que as assolava, ressaltando-lhes apenas a sua condição de vassalas. A autora apregoava o trabalho como único recurso capaz de garantir à mulher uma completa liberdade.
(...) Por outro lado, o conjunto de regras conservadoras que sempre ditou o padrão de comportamento feminino, assim como os padrões familiares de cada época (com a hegemonia masculina na chefia da família, compelindo a voz feminina ao silêncio) geraram uma série de interdições que incapacitaram a mulher para o mundo. (...) Simone Beauvoir, ao traçar o quadro de dificuldades que se apresentam para a mulher que deseja se desvencilhar da imagem de fragilidade e de incapacidade esboçadas pela fala masculina, foi pontual ao assinalar que:
''As restrições que a educação e os costumes impõem à mulher restringem seu domínio sobre o universo.''
A escritora Virgínia Woolf, por sua vez, em Um teto todo seu , aponta as vantagens que advêm para a mulher que consegue a independência econômica, independência essa que lhe viabiliza, sobretudo, a oportunidade de pensar o mundo sob uma nova perspectiva. No livro em questão, entre os diversos pontos levantados pela autora está a busca de uma explicação para o fato de sempre ter havido nas obras de ficção - masculinas, já que nunca se deu à mulher a oportunidade de se fixar como grande escritora - uma superioridade feminina:
''De fato, se a mulher só existe na ficção escrita pelos homens, poder-se-ia imaginá-la como uma pessoa da maior importância: muito versátil, heróica e mesquinha; admirável e sórdida, infinitamente bela e medonha ao extremo; tão grande quanto o homem e até maior, para alguns. Mas isso é a mulher na ficção. Na realidade, como assinala o Professor Trevelyan, ela era trancafiada, surrada e atirada ao quarto.''
Para conferir na íntegra o ensaio de Édimo de Almeida Pereira clique aqui.
(*) Édimo De Almeida Pereira é mestrando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora. O autor de ''O Menino Assentado no Meio do Mundo & Outros Contos", a ser lançado no dia 20 deste mês pela FUNALFA Edições, trabalha na dissertação sobre a obra do poeta Adão Ventura.
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Sábado, Março 13, 2004
[do Balaio]
Para marcar o Dia Nacional da Poesia (14/3), resolvemos catar alguma coisa do velho poeta do giz, que circulou pelas ruas de Belo Horizonte anos atrás. Atacava as calçadas e postes na madrugada, com uma escrita marcada por um dadaísmo peculiar, um brutalismo antidiscursivo. Quem conseguiu flagrá-lo diz que aparentemente sofria distúrbios mentais, não tinha casa nem rumo, misturava línguas na sua fala.
O trecho reproduzido abaixo foi fisgado do livro ''Lúpen'' (1992), de Otávio Ramos, que devora não só a poesia do poeta do giz quanto uma multiplicidade de autores:
''ASMULHERISCURA
ASMULHERBRANCA
ASMULHEPRETA
ASMULHERMORENA
ASMULHERNEGRA
ASMULHERCABOCLA
ASMULHERCLIOULA''
(P.S.: Pode ser que o fragmento do poema reproduzido acima tenha sido apenas mimetizado pelo Otávio Ramos. But...)
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Sexta-feira, Março 12, 2004
MIUDEZAS DESEJANTES
foto: Alberto Field
Salvador Dalí, 1957
[Wir Caetano]
Andei meio sumido do blogue, acho. Isso porque os afazeres acadêmicos andam me sugando. Mas vou tentar, na próxima semana, lhes trazer ao paladar um pouco do livro "Genealogia do Banal", do baiano Marcus do Rio, publicado em 1981 pelo "Coletivo Barbárie". Esse "coletivo" em um grupo formado por "neo-anarquistas filosóficos", gente menos interessada em Bakunin do que em Nietzche.
Eles tinham uma revista - não sei se existe ainda - de nome "Barbárie", onde cheguei a publicar um poeminha, com um certo gosto anedótico anos 70, mas inspirado em texto do "Genealogia..." sobre Salvador Dalí". Diz assim:
rei no duro era o rei midas
o que tocava virava ouro:
céu pedra rios santos demônios
quanto à comida
nenhum problema
servos de ouro serviam sua boca
quanto aos amores
nenhum problema
transava em pé e com as mãos no bolso
Mas "Genealogia do Banal" não tem nada de anedótico. É, isso, sim, guiado por uma poética que aspira a imantar as miudezas do mundo com uma escrita desejante. Uma poética avessa à "ética do trabalho". Etc, etc. Calma!, voltaremos ao assunto.
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Quinta-feira, Março 11, 2004
Intervenção sobre imagem "chupada" da rede/divulgação
[George Cardoso]
Cinzas. São cinzas os dois pares de olhos que vigiam a cidade. Íris de concreto que avistam o horizonte sobre edifícios, corpos e almas. Irmão um do outro, da mesma tribo. Talvez, pai e filho, não se sabe... Muitas pessoas circulam pelo centro da capital mineira; eles vigiam. Um mendigo pede esmolas, na esquina; vigiam. Numa ação rápida e cotidiana, o pivete, movido à cola, assalta o senhor aposentado. Dinheiro escasso e parco do velho, agora, já foi, mas... Continuam vigiando. Um homem em conflito existencial... Muitos estão. Assim, sob olhares, o tédio, o avesso da fé, consome a cidade. Doa a quem doer, esse sentimento martiriza e é capaz de destruir a esperança de cada um. No entanto, eles continuam em vigília, imóveis, sérios, uma cultura muito antiga, para além dos cento e poucos anos da cidade. Edifício Rotary, 17h37. Sol a pino, tarde duma sexta-feira. O forte calor derrete pensamentos, sentimentos, o amor, que muitos crêem que é capaz de dar asas a vida. Alguém elege o dia. ''A vida é essa: subir Bahia e descer Floresta'', diz certo compositor no monumento. Um homem é contra e, vindo do céu, desce a Bahia, na contramão do verso, da vida. Fisicamente, o edifício não parece com a torre de Minos, mas... Só os três viram Dédalo varar as nuvens. Ecoa um grito: aaaaaaaaaaaaaaaahhhh, plaft! No raio de poucos metros a terra treme. Muitas pessoas viram, inclusive eles, os dois. Um corpo se chocou contra a onda de asfalto, entre transeuntes e automóveis. O que um dia foi vida, esperança, sonho, hoje é nada. Uma alma vagueia sob o olhar sentencioso deles. Crânio rachado, miolos de fora, fêmur fraturado que dilacera a carne, sangue, muito sangue. Venha degustar à noite nosso delicioso rodízio de massas, é a oferta do La Greppia. Ao contrário das outras pessoas e de você, eles não torcem os narizes nem mudam de expressão. Estão sempre ali, parados, observando tudo. Sirenes ressoam em meio a um turbilhão de vozes. Muitos curiosos chegam perto para assistir à desgraça, como acontece nos dias de clássico Galo-Cruzeiro, diante das televisões dos muitos bares da tradicional travessia. A polícia toma conta do local, tenta controlar a situação causada por um homem sem controle. Aguardam a perícia. Até eles, que vigiam, estão sempre a aguardar. Só pode ser mulher ou dívida, arrisca o palpite popular sobre a causa. Como um rio que desce uma das muitas serras de Minas, o melado vermelho escorre pela rua afora e... 17h59. Mesmo chorando por causa do ocorrido - é, porque ela chora por tudo! -, a Santa está ansiosa pela atenção dos seus fiéis. Uma senhora muito idosa passa na esquina com a avenida Augusto de Lima. Dona Maria veste-se como um tabuleiro de xadrez, preto e branco, e traz um rosário pendurado no peito. Balbucia algumas palavras e gesticula. Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém: CCBH*. Muitas vezes a velha já presenciou a cena que insiste em repetir, de tempo em tempo. Acontece que, agora, erraram o endereço. Eles foram contrariados. Sim, os dois não devem ter gostado de serem preteridos. Mas ela, que reza intimamente, já conhece toda a história, desde o tempo de menina, virgem e ingênua, quando já testemunhara fatos semelhantes a esse. A anciã de hoje faz idéia do porquê homens e mulheres cometem essa aventura para o esquecimento, fazem isso... Por influência do mito, dos índios, da dor do tédio, morrem: Acaiacas, a imagem alterosa das desilusões.
(*) Centro de Cultura Belo Horizonte - construído em 1914, em estilo neogótico, o prédio tombado já foi sede da Câmara Municipal, da PRC-7 Rádio Mineira (primeira de Belô), Museu de Mineralogia, Instituto Histórico-Geográfico de Minas Gerais. Sediou também sessões da Academia Mineira de Letras e a Semana Mineira de Arte Moderna. Resumindo, já foi muita coisa, menos igreja.
Publicado originalmente na revista eletrônica Paralelos em 29/02/04.
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Terça-feira, Março 09, 2004
LETRA TERRA - UMA NOVA POESIA NO BRASIL?
Bepnhi Mekragnotire/reprodução
Poética ilustrada kayapó
[Maria Inês de Almeida](*)
Literatura é o que a gente faz com as letras, foi minha resposta espontânea quando Perankô Panara me perguntou: Professora, o que é literatura? Eu também quis lhe fazer uma pergunta: O que é Perankô em português? Suco de mel, ele respondeu e seus olhos espalharam tanto mel que eu fiquei emocionada. Um rapaz panara alto e forte esperava paciente minhas respostas e minhas orientações: escreva isso, escreva aquilo, leia, recorte, dobre, corrija, passe a limpo, escreva de novo, desenhe, fale, vá...
Chegando na aldeia Piaraçu, me impressionou a floresta fechada da reserva indígena mẽbêngôkre, mas antes já tinha reparado, durante o vôo de mais de uma hora desde Alta Floresta, como as grandes pastagens, com seus boisinhos parecendo vermes branquinhos, pintavam de tal forma o verde, que isso daria um lindo desenho num livro de geografia. Depois, os garimpos abandonados - grandes e inúmeras crateras acinzentadas - verdadeiros cancros sofridos pelos infelizes garimpeiros ausentes, que agora derrubam febrilmente outras matas, em busca do único alimento capaz de saciar sua alma.
Sobrevoamos também algumas grandes vilas, acho que aquelas fileiras de casas quadradas não podem ser chamadas de cidades, com nomes parecendo siglas: SINOP, COLIDER, Alta floresta é uma exceção, embora meio igual a tantas... e me lembrei que venho de uma família de colonizadores, que impõem sua cultura atropelando e desmatando tudo. Então tive o primeiro insight sobre o que poderia propor aos Kayapó (modo como generalizamos povos que vivem nas beiras do Xingu): descobrir como fundar um espaço de poesia para nós. Como a letra transforma, porque ela é o território do homem, onde ele desenha o sonho.
O conhecimento que pretendemos, uns dos outros, consiste em deixar o pensamento vagar até um ponto em que ancoramos nossas idéias, na encosta de um rochedo em alto mar. Ali misturamos restos que tentaremos reconstituir até virar um mundo. A letra seria o ponto zero desse mundo, que não passa de imaginação.
Talvez criássemos marcas diferentes das siglas dos branquelos sulistas que enchem semanalmente os aviões para o Mato Grosso. Então propus um conceito de literatura que levaria à poesia na sua dimensão verbivocovisual, seguindo uma intuição, mas também uma reflexão, que surgiu da leitura do que os índios brasileiros estão publicando. Desde o Acre e o Alto Solimões, têm descido textos desenhados, a maioria narrativas, mas alguns são poemas, que provocam sempre admiração e uma espécie de encantamento, o que por si já é uma fruição poética:
GAOBUB (espírito de um pássaro)
Cheguei com muito poder e força
Sou um pedaço do céu
Vôo longe dos céus
Eu mesmo pareço o céu, pareço o céu.
Cheguei com força
Vôo longe nos céus, e quando chego
Curo os que estão doentes
Voltando aos céus outra vez
Lá, quase viro outro ser, lá longe.
Cheguei com poder
Havia gente esperando, doente
E me avisaram.
Então corri para cá.
(Pajé Perpera Suruí)
______________________________________________________
Eu pensava que a terra remendava com o céu
No meu pensamento de antigamente,
quando eu era menino,
o mundo, eu pensava
que era que nem tocaia,
a terra remendava com o céu.
O sol,
eu pensava que eram muitos,
passando dias e dias.
A noite,
eu pensava que era que nem fumaça,
porque quando o sol ia embora,
a noite vinha cobrir o mundo.
O céu,
eu pensava que era que nem ferro,
nunca acaba.
A chuva,
eu pensava que era alguma pessoa,
que morava no céu e derramava água.
A água ,
eu pensava que eram alguns bichos grandes,
esturrando em cima do céu.
O homem,
eu pensava que só nós mesmos vivíamos,
só nós mesmos, o povo Kaxinawá.
A língua, eu pensava que todo mundo falava
na nossa língua mesmo, o Kaxinawá.
Um dia, eu vi um branco chegando na nossa casa falando diferente.
Mas eu pensava que quando eu fosse na casa dele, ele ia falar em Kaxinawá.
Um dia, eu fui viajar com meu pai, para ver onde estava a terra remendada com o céu. Nós íamos descendo o rio e quando passaram alguns dias perguntei ao meu pai onde estava a terra remendada com o céu. Meu pai me disse que não estava remendada a terra com o céu. Que o mundo é muito grande e não tem fim...
(Noberto Sales Tene Kaxinawá)
________________________________________________________
Uma semana na aldeia Piaraçu me deixou a certeza de que valia a pena continuar com os Kayapó (na verdade Mẽbêngôkre, Panara e Tapajuna), naquela empreitada de iniciar a sua literatura. E quando eles cantaram, na festa de despedida que me ofereceram, sobretudo alguns cantos de guerra, encenando combates e caçadas, soube que sua poesia pulsava de tal forma para a letra, que seguramente eles já a estavam começando a escrever, e que havia uma dimensão além da verbal, da sonora e da visual: a terrena. Seria engraçado uma nova poética chamada terriverbivocovisual.
A partir de exercícios com as letras, leitura e escrita, começaram a surgir no ambiente suas ''histórias¿ e seus ¿sonhos'' - que identifiquei como duas categorias de gênero, a primeira ligada à memória dos mais velhos (resultado de uma escuta) e a segunda, à imaginação (resultado de olhar o mundo) - e quase que naturalmente eles iam escrevendo, como se realizassem uma primeira e ainda minguada colheita:
História da anta e a mulher
Na época dos antigos a mulher casada namorava com a anta.
Um dia a mulher levou seu filho para pegar as frutas do buriti.
Quando ela chegou onde tinha as frutas do buriti, começou a pegar as frutas do buriti.
A mulher já tinha terminado de pegar as frutas do buriti e falou com seu filho:
- Espera aqui, eu vou lá pegar frutas no outro buriti.
Quando a mulher ia caminhando até chegar onde tinha outras frutas de buriti, ela viu o rastro da anta, e começou a chamar a anta.
Aí, a anta veio até chegar onde a mulher estava pegando as frutas do buriti e começou a transar com ela.
O filho dela ficou esperando, esperando, até que ele chamou pela sua mãe.
A mulher falou com seu filho:
- Espera, eu estou pegando aqui.
O menino foi no rumo da sua mãe, comendo a fruta do buriti, quando o menino estava chegando, já tinha uma anta transando com sua mãe.
Logo o menino jogou um caroço de buriti e acertou no meio da testa da anta.
A anta pulou em cima da mulher e bateu nela com a barriga, a mulher morreu e depois de meia hora ela voltou a viver.
A mulher pegou seu filho, arranhando com um tipo de taquara, e levou seu filho de volta para a aldeia.
Quando chegou na aldeia, pintou seu filho bem de preto, com jenipapo, e o menino ficou chorando, por causa da arranhadeira. O menino ficou chorando, chorando até seu pai chegar na aldeia.
O pai do menino perguntou para seu filho, e o menino respondeu para seu pai:
- Minha mãe me levou para pegar as frutas do buriti, a anta estava transando com ela, aí eu joguei um caroço do buriti e acertei bem na testa da anta, por isso ela me arranhou com um tipo de taquara.
O pai do menino nem falou nada.
Aí, um dia o pessoal estava querendo matar a anta para comer.
O marido da mulher levou seu filho para caçar onde tinha o cerrado da anta.
Quando eles chegaram no cerrado da anta, o menino subiu em cima da árvore e sentou para procurar a anta para seu pai.
Quando o pessoal soltou a anta, ela pegou seu rumo correndo.
Onde eles estavam era o rumo da anta, quando a anta correu para aquele rumo o pai do menino falou com seu filho:
- É essa?
O menino falou:
- Não foi essa.
No final, o pessoal soltou aquela anta que transou com a mulher do homem.
Quando a anta correu para perto dele, o pai perguntou para seu filho:
-É essa?
O menino falou:
-É, foi essa anta.
A anta tinha marcado na testa, logo ele começou a flechar e acertou a anta. Aí ele cortou o pau da anta antes do pessoal chegar e embrulhou com a folha de banana brava, quando os velhos já começavam a fazer o forno para assar a anta.
Ele pediu para o velho assar o pau da anta e falou com o velho que aquilo era a corda do arco, mas ninguém sabia que aquilo não era corda do arco.
O homem chegou na casa dele, pediu a sua mulher para pegar o pau da anta e jogar em cima da casa.
A mulher não sabia disso e pegou o pau da anta e jogou em cima da casa para secar.
Anoiteceu, o marido da mulher estava na casa dos homens. Depois, o homem foi para casa dele, a mulher já tinha dormido e o marido pegou o pau da anta, entrou e deitou. Logo ele queria transar com a sua mulher.
O marido levantou a coxa da sua mulher e começou a transar com o pau da anta. Bem fechada estava a boca da mulher, para ela não gritar.
Quando o marido estava transando, ele soltou o pau da anta dentro da sua mulher.
Aí a mulher morreu.
O homem pegou a esteira e cobriu a mulher e foi para a casa dos homens.
Quando amanheceu, a mãe da mulher falou com sua filha para acordar.
A mãe chamou três vezes pela sua filha. A mãe da mulher achava que sua filha estava viva.
A mãe dela foi lá e pegou a esteira e viu que a mulher já tinha morrido. Depois disso, elas pintaram o corpo da mulher e enfeitaram. Quando elas levantaram a sua filha para por as penas das aves, o pau da anta caiu.
A mãe da mulher falou com sua outra filha:
- Foi ele mesmo que matou a sua irmã com o pau da anta.
Aí, eles levaram o corpo da mulher para enterrar no cemitério.
Os irmãos da mulher estavam querendo matar o marido dela por causa da morte da sua irmã.
Quando o marido dela esqueceu disso e estava dormindo na casa dos homens, os irmãos dela foram lá, pegaram uma corda do arco bem grosso e amarraram no pescoço do marido.
O primeiro irmão puxou a corda de lá e o irmão caçula puxou a corda de cá.
Os irmãos dela já pagaram a sua morte, já pagaram a sua irmã.
(WaiWai Metuktire e Tàkàk-ê Kayapo)
Essa experiência literária, acho que exemplifica um pouco uma prática já corrente em programas de escolarização das aldeias indígenas, que têm como contrapartida um saldo de poesia, o que se tornará um fato histórico, ou melhor, constituirá uma literatura. Mas o mais importante para nós, que vivemos a experiência, é descer do avião e caminhar até aquele grupo de rapazes fortes e alegres que abrem os braços e nos levam até uma sala de aula porque querem fundar suas ''literaterras''.
(*) Maria Inês de Almeida é professora de Literatura Brasileira e coordenadora do Programa de Extensão de Culturas Indígenas na UFMG e assessora de cursos de formação de professores indígenas em Minas Gerais e Mato Grosso.
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Quinta-feira, Março 04, 2004
PORTFÓLIO DO JOCA
O bróder Joca Terron, designer, editor, escritor ("Curva de Rio Sujo"...), etc, etc. etc., criou um portfólio WEB com seu trabalho gráfico. Baixem lá:
http://terron.fotoblog.uol.com.br/
Esta imagem aí embaixo é só um exemplozinho:
(ilustração editorial para jornal (cliente: Unesp)).
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Quarta-feira, Março 03, 2004

[do Balaio]
A revista online "Paralelos" publica, este mês, textos de 22 autores mineiros. Iniciativa bacana, que contou com "brodagem" do George Cardoso, um de nossos armengueiros, para conseguir as colaborações. Mas um detalhe infeliz: o titulo "Edição Especial Pão de Queijo", que nasceu de alguma cabeça do conselho editorial da revista. Parece esse papo de mineiridade, não sei o quê. ESTEREÓTIPO. Nunca esperaríamos ver a galera do Rio de Janeiro "extraindo a expressão mais desgastada... ".
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emeele
[Regis Gonçalves]
disse-lhe:
o amor é feito disso
- diabruras
(o sol
rosnava na janela
e nus
dormíamos)
admirei-me ao vê-la
linha fria desenovelar-se em mim
como ternura
do amor de nós de tudo
o que sabíamos?
mas havia
a tinta do dia
a descascar-se em luz
sobre seu púbis.
Regis Goncalves é jornalista, poeta e cronista. Tem três livros publicados e dois inéditos (poesia), um deles, "Candongas d'Amores", a sair este ano pela editora Ciência do Acidente. Vive em Belo Horizonte.
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07:44
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Segunda-feira, Março 01, 2004
LITERATURA NA BLOGOSFERA: DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE ELA
[Wir Caetano]
Bróders:
O texto abaixo foi escrito para a mais recente edição do "Suplemento Literário" (publicação da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais):
Os segmentos literários da "blogosfera" bem podem ser vistos como uma versão das manifestações da poesia marginal em em novo solo - a Internet. Não por qualquer proximidade de princípios poéticos, mas sim porque o velho mimeógrafo - ferramental quase indispensável da maioria dos poetas marginais - tem em sua medula um ingrediente que é o grande lance do blog: a capacidade reprodutiva. Com o mimeógrafo, os originais de um livro logo logo eram reproduzidos em centenas, a custo baixíssimo; com os blogs, um texto entra logo logo "no ar" (na teia global, diga-se) e pode ser consumido por milhares e milhares de webnautas, de graça até. E nossa verdade é o consumo, não é mesmo?, não por imposição do capitalismo, mas do - sim, foi o velho Oswald quem disse - canibalismo.
Já que há pessoas com fome dessa carne humana chamada "texto", no início do anos 80 editei, com alguns amigos - Joel da Páschoa e Geraldo Magela Ferreira -, uma revista mimeografada, a "Rebu". Mas ainda naquela década, os próprios poetas marginais começaram a se cansar do mimeógrafo, das páginas feias com letras cheirando a álcool. A princípio, a precariedade era parte de uma ética da guerrilha, mas a postura foi mudando. O livro que editei na época, intitulado "Paixões e Atrofias" (eu ainda não era muito criativo com títulos), não saiu das tetas alcoolizadas do mimeógrafo. É verdade que não era propriamente bonito, mas veio com visual mais fornido, de dentro de uma gráfica.
Gráfica? O dinheiro (o nosso, os pobres) é sempre menor do que a fome e, daí, a WEB veio quebrar o galho dos eternos famintos e duros. Então, escritores - e muitos escrevinhadores, é verdade - foram se agarrando a essa teia. O surgimento dos blogs (sites de edição mais tranqüila, sem necessidadade de "upload" (*) de arquivos ¿html¿ e em que os textos são dispostos de forma sucessiva em uma mesma página) tornou a coisa ainda mais fácil. Tão fácil que a blogosfera virou, principalmente, um grande parque de "diários íntimos" de gente faminta de falar de si mesmo, de seus gostos, dos "fait-divers" de seu círculo doméstico. E esse umbiguismo acabou quase por se tornar a tradução do bloguismo. Mas, para além do umbigo, há aqueles que querem mesmo é se ocupar com literatura, música, essas coisas.
Um problema que vejo nos blogs é justamente um fator que é o seu forte: a cultura do "template" (modelo). Sim, para a montagem dos blogs, os provedores disponibilizam uma série de modelos, o que evita muito trabalho ao blogueiro, porém povoa a Internet com milhares de páginas visualmente quase iguais. Embora esses modelos possam ser alterados por quem tenha um pouco de domínio técnico, isso raramente acontece. Daí que a demanda por beleza parece distante da blogosfera. E, por essa e outras razões, o "Armengue Press" já aspira a se tornar uma verdadeira revista eletrônica, com muito mais do que a costumeira sucessão de "posts".
(*) "upload" é a transferência de arquivos do computador do usuário para um servidor de Internet.
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12:47
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