Segunda-feira, Junho 28, 2004

UM CONTO

''Dom Bandido vive num desses morros vizinhos daquele escondido lá atrás; mora perto de um barraco distante, bem defronte de outro acolá, não sei, ao certo, exatamente onde. Duvido que alguém daqui saiba ou deseje saber. Os que sabem não são malucos de falar; quem falar sabe o que pode acontecer; quem falou não fala mais. Só se sabe, que seja lá onde for que ele dorme, não desfruta do sono, não consegue sonhar e padece de pesadelos'', explicou Nego Velho, antigo sambista, umbandista convicto e cambista do bicho, o único que não teve medo de conversar sobre aquele marginal, bandido meio herói e muito louco, que a lei procurava, que o povo do morro amava, temia e respeitava, que a polícia odiava e por quem inúmeras mulheres morreriam molhadas e sorrindo.

Para ler toda aventura de Dom Bandido clique aqui.

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Terça-feira, Junho 22, 2004

ALGO DE NOVO NO TEATRO EUROPEU

Jovens valores, lançados na passada década de 90, encontram o seu espaço e revolucionam o panorama do teatro europeu

Ugo Giletta/reprodução


[Antonio Júnior - de Sevilha/ESP]

Em Berlim, o diretor teatral Thomas Ostermaier, que escandalizou a crítica em suas montagens na pequena sala do Deutsches Theater com textos da nova dramaturgia européia (introduziu Sarah Kane e Jon Fosse nos circuitos do teatro oficial alemão) e conquistou um público que nunca deixou de lotar seus espetáculos, há dois anos dirige o mítico espaço Schaubühne, rodeado de uma equipe igualmente excepcional. Marius von Mayenburg, conhecido em toda Europa por sua obra ''Rosto de Fogo'', é o seu dramaturgo de plantão. Ao lado de Ostermaier, lança novos descobrimentos da escritura dramática como a iugoslava Biljana Srbljanovic ou o alemão Falk Richter, além de versões de autores clássicos, como ''Casa de Bonecas'' de Ibsen, ou ''A Morte de Danton'' de Büchner.

Surpreendendo a classe artística, a direçao do famoso Festival de Avignon foi parar este ano nas mãos de Vincent Baudriller, um jovem gestor cultural que já anunciou o que será o seu mandato durante os quatro próximos anos. Seu objetivo é converter o festival francês como ponto de lançamento para novas propostas e a nova teatrilidade que surge por toda a Europa. Para isso, disse que associará cada edição a um criador diferente, tanto de origem geográfica como de profissão artística: um diretor teatral alemão (Thomas Ostermaier, de novo) em 2004; um coreógrafo belga (Jan Fabre) em 2005; um dramaturgo iugoslavo/francês (Josef Badj) em 2006, e um diretor teatral francês (Fréderic Fisbach) em 2007.

O sempre inquieto Royal Court Theater, na Inglaterra, depois do mandato de Stephen Daldry como diretor, e sua consagração no cinema internacional com ''Billy Elliott'' e ''As Horas'', está sendo dirigido por Ian Rickson, outro jovem diretor que, após o reconhecimento com a obra de Connar McPherson, ''The Weir'', prossegue seu trabalho de divulgar novos autores como Richard Bean ou Ché Walker.

Depois de anos de letargia em que só se ouvia falar do teatro físico do catalão La Fura dels Baus, parece que algo de novo está surgindo com o nomeamento de Alex Rigola para a direção do inovador Teatre Lliure, em Barcelona. Fala-se do talento do diretor teatral José Pascual e do dramaturgo Borja Ortiz de Gondra. Pascual se especializou num repertório contemporâneo, montando obras de David Mamet (''Oleanna''), Steven Berkoff (''Kvetch''), Caryl Churchill (''El Séptimo Cielo'') e Patrick Süskind (''O Contrabaixo''), além de um ou outro clássico de Bernard Shaw e Bertold Brecht. Seu trabalho se caracteriza por uma rigoroza direção de atores e uma atenção extrema a detalhes cênicos. Atualmente trabalha na versão do popular ''El Caballero de Olmedo'' de Lope de Vega.

Borja Ortiz de Gondra é conhecido principalmente por sua obra dramática, pela qual ganhou prêmios importantes (entre eles, o Calderón de la Barca do Ministério da Cultura), embora ultimamente tenha dirigido os seus próprios textos. É um criador inclassificável, que surpreende com uma criação politicamente incorreta, mordaz e demolidora, caso de ''Dedos - Vodevil Negro'', ou do audacioso ''Del Otro Lado'', que trata de um tema tabu no teatro espanhol, os conflitos do país basco. Ele já se apresentou na França e na Argentina. Outsider nato, se espera que derrube as estruturas caretas do convencional teatro espanhol.

(*) Baiano, Antonio Júnior é jornalista e escritor, autor de "ArtePalavra - Conversas no Velho Mundo" (AS Editores, 2002), entre outros. Edita o blog-revista No silêncio da noite.

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Sexta-feira, Junho 18, 2004

TRAVESSIA LITERÁRIA, DOIS LANÇAMENTOS

[George Cardoso]

1.
Com pouco mais de cinco meses à frente do Suplemento Literário de Minas Gerais, o poeta Fabrício Marques tem inovado bastante na publicação criada há quase 40 anos por Murilo Rubião. Além da definição de seções no jornal, como a "Primeira Pessoa", em que um escritor relata sua trajetória, obra e processo de criação, dentre muitas outras, o novo suplemento (sim, porque tá na cara que foi revitalizado) está com uma proposta de lançamento itinerante. A idéia do conselho editorial é lançar cada número em uma livraria da capital ou em outras cidades ou outros Estados. Por enquanto, fora de Belo Horizonte só Juiz de Fora acolheu a nova proposta.

Neste sábado (19/6), a edição de junho será lançada, às 11 horas, na Livraria Scriptum (rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi, Belo Horizonte). Os destaques que o novo número do SLMG traz são textos de Sebastião Nunes, Jaime Prado Gouvêa, Wilmar Silva, uma tradução do chileno Gonzalo Rojas, homenagem ao poeta Adão Ventura e muito mais. A ilustração desta vez ficou sob a responsa da artista plástica Lilisa Mendes. Passe lá e pegue o seu!

2.
Ainda na manhã do sábado, subindo um pouco mais a rua Fernandes Tourinho até o número 274 chega-se à livraria Quixote, onde estará acontecendo também o lançamento do livro "Idéia Mínima" (Sêlo Editorial), do poeta Bruno Brum.

O livro é o terceiro título publicado pela editora criada pelos poetas Makely Ka e Renato Negrão. "Este livro possui uma linguagem bem despojada, resultado de diversas influências que valorizam a materialidade da palavra, do som, a poesia concreta, quadrinhos e cinema", define o belo-horizontino de 23 anos, Bruno Brum, que marca sua estréia na poesia. Confira também.

Reprodução

"Mínima Idéia" (Poemas)
Bruno Brum
Sêlo Editorial
64 páginas
R$ 15

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Quinta-feira, Junho 17, 2004

o glosador motejoso ataca...

SONETO 510 MALOCATÁRIO

[Glauco Mattoso](*)

Soneto é um apertado apartamento
num vasto condomínio de inquilinos.
A mesma planta e vários seus destinos:
um drama urbano em cada pavimento.

Dois quartos, pouca luz e muito vento,
que podem ser alcovas ou cassinos,
paróquias parcas, clubes clandestinos,
abrigo do autor brega ou do briguento.

Agora virou zona, mas um dia
foi casa de família e regra tinha:
conversa só começa se o pai pia.

Além da comezinha escrivaninha,
só tem privada, cama, mesa e pia.
Sem sala, o papo acaba na cozinha.

(*) Glauco Mattoso dispensa apresentação, mas vai aí um quase nada assim mesmo: poeta, letrista, ficcionista, podólatra profissional, autor de "Manual do Pedólatra Amador" (quadrinhos), "Poesia Digesta". "Pegadas Noturnas: Dissonetos Barrockistas", dentre muitos outros trabalhos. É cego como Homero.

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Segunda-feira, Junho 14, 2004

DE VOLTA À ORIGEM

[Wir Caetano]

O poeta Adão Ventura se foi no sábado, vítima de câncer. A imagem que fica em minha memória é de nós dois num carro, a caminho de um hotel, quando o levei à minha cidade, Monlevade, para o lançamento de seu livro "A Cor da Pele". Eu, que nunca voltei minha poesia para questões de negritude - a não ser em uns dois ou três poemas recentes - confesso que naquela época me senti tentado a experimentar algo nessa trilha, motivado pelo trabalho.
Depois, não nos vimos mais. Ele foi ser juiz classista no interior e andou sumido do meio literário. Somente há pouco tempo ouvi notícias do Adão, de sua doença, quando o poeta estava para lançar seu último livro, "Litanias de Cão". Depois acabei por fazer referências a ele em um poema sobre racismo. Foi o último alô, à distância.

****

Dois poemas de Adão Ventura:

ENCANTAMENTO

Você agora
é arco-íris
sol
de Três Barras
cristal
de São Gonçalo do Rio das Pedras
- Um caminhão transporta estrelas
do Pico do Itambé
- Um raio corta de fora a fora
os céus do Serro


ORIGEM

Vestir a camisa
de um poeta negro
- espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
- dessas antigas,
marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte

- E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.

Clique aqui para ler o "post" em que faço uma rápida referência ao poeta.

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Quinta-feira, Junho 10, 2004

ALCUNHAS DE UM PASSADO TENEBROSO

Bayerische S. Bildarchiv/divulgação

O Führer entre crianças

[George Cardoso]

Uma viagem através do tempo por várias trajetórias de vidas ligadas à sangrenta história alemã por um único elo: o sobrenome. O livro-reportagem Tu carregas o meu nome - A herança dos filhos de nazistas notórios (Editora Record, 2004) revela os traumas psicológicos e afetivos que o Terceiro Reich causou em pessoas que tiveram suas vidas marcadas para sempre pela imagem dos pais.

Em 1959, o jornalista germânico Norbert Lebert iniciou uma série de entrevistas com filhos e filhas de nazistas que possuíam sobrenomes como Hess, Bormann, Göring, Hans, Himmler, tidos como vergonhosos na Alemanha pós Segunda Guerra. Tratavam-se dos responsáveis pelas atrocidades, injustiças e genocídios praticados pela máquina de guerra hitleriana. A reportagem, que recebeu o título homônimo ao livro, foi publicada na revista Weltbild, no mesmo ano.

Quarenta anos após os relatos coletados por Norbert, seu filho, Stephan, também jornalista, descobriu o material nos arquivos do pai, morto em 1993. Foi despertado no filho o interesse encontrar os entrevistados. Novas entrevistas foram feitas com os agora cidadãos de meia-idade, que acrescentaram às histórias uma visão mais madura, num diálogo entre o passado e o futuro, de como eles lembravam seus pais. Alguns deles omitem os sobrenomes e assumiram uma vida na clandestinidade.

As histórias surpreendem e algumas são perturbadoras. Numa delas, um jovem de 22 anos se recusa a prestar o serviço militar, argumentando que seu pai era prisioneiro do estado. Trata-se de Wolf-Rüdiger Hess, afilhado de Adolf Hitler - padrinho de diversos filhos de oficiais de seu gabinete - e filho de Rudolf Hess, vice-Führer do Estado Nazista e considerado o confidente mais íntimo do ditador. Após o seu avião ter caído em território escocês, em 1941, ele foi preso pelos aliados (EUA, França, Inglaterra e Rússia) e condenado à prisão perpétua por crimes de guerra e contra a humanidade.

Hess participou ativamente dos ataques alemães a Áustria, Tchecoslováquia e Polônia, e foi companheiro de Hitler na prisão de Landberg e ajudou-o a redigir Mein Kampf (Minha Luta), a biografia do líder nazista. O oficial foi encontrado morto em 1987, em Spandau, depois de mais de 40 anos de detenção, tendo sido nos últimos 20 anos o único prisioneiro de um imenso presídio. Morreu, aos 93 anos, em uma prisão fantasmagórica. A versão oficial da causa mortis de Rudolf Hess consta que ele se enforcou na cela. Para o filho, Hess foi assassinado. Wolf-Rüdiger Hess cultua o pai como um mátir da paz, que empreendeu vôo para a Inglaterra em 1941 para salvar o mundo. O filho admirador recebeu ao longo da vida as orientações do pai como ensinamentos bíblicos.

A idolatria chegou ao ponto de ele criar a Associação Liberdade para Rudolf Hess, entidade que tinha como membros velhos soldados. O encontro de Stephan com Wolf-Rüdiger ocorreu em 2000, 41 anos após a entrevista com Norbert. Aos 61 anos, o filho do lugar-tenente de Hitler estava na fila de espera por um transplante renal. A saúde debilitada o submetia a três sessões de diálises semanais. O primeiro encontro de Wolf-Rüdiger com o pai após a prisão ocorreu em 1969. Até a morte de Rudolf foram 102 visitas, todas documentadas num diário, que serviu como base para o livro Rudolf Hess: não me arrependo de nada.

Nem sempre o ''filho de peixe, peixinho é''. Um homem alto, de corpo atlético e profundas olheiras. Assim era Hans Frank, secretário de Justiça da Baviera e ex-governador-geral da Polônia. Sua missão especial era promover chacinas. Quando detido pelos norte-americanos, em 1945, tentou cometer suicídio cortando os próprios pulsos. Fracassou. Rendido, teve de entregar obras de arte avaliadas em vários milhões de dólares que tinha roubado e seu diário de 38 volumes que continham diálogos com Hitler como este: ''Meu Führer, devo informar-lhe que hoje exterminei mais de 150 mil poloneses...''. Em 1946, o homem que tornou possível Auschwitz foi condenado à forca.

Um jornalista conceituado da revista Stern, uma das mais principais publicações alemãs, escreveu em meados dos anos 80 uma série de reportagens com o título Meu pai, um assassino nazista. O jornalista é Niklas Frank, o caçula dos cinco filhos do carrasco genocida de olheiras profundas. Niklas não esconde os horrores que sente do pai e a revolta para com o legado histórico deixado por ele: ''Certamente uma das razões pelas quais odeio tanto meu pai é que volta e meia eu o descubro dentro de mim''.

As matérias de Niklas, consideradas uma importante contribuição para a promoção dos direitos humanos, abalaram a opinião pública alemã, o que levou a Stern a publicar dezenas de cartas recriminatórias de leitores. Uma das correspondências trazia a mensagem: ''não importa o que o pai fez, pai é pai e precisa ser honrado''. Tu carregas meu nome é uma obra de esclarecedora contribuição para compreender o mundo do nazismo, bem como esse passado que ainda assombra a humanidade.

Reprodução

''Tu Carregas Meu Nome''
(Denn du trägst meinen namen)
Norbert e Stephan Lebert
Tradução de Kristina Michahelles
Editora Record
206 páginas
R$ 30,90

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Sexta-feira, Junho 04, 2004

DI REDIVIVO

Reprodução

Clique no cartaz para saber mais do filme e fazer o download

[do Balaio]

"Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição". Com esse depoimento, Glauber Rocha explicou o porquê de ter filmado, em 1976, o velório e o enterro do pintor Di Cavalcanti (1897-1976).

O curta-metragem "Di", de 16 minutos, foi impedido de ser exibido em território brasileiro há 25 anos, a pedido da família de Di, que acredita que o filme fere a imagem do artista modernista.

João Rocha, 28, sobrinho do cineasta baiano, é o responsável por disponibilizar oficialmente o filme na internet com as imagens tratadas. Para driblar o processo judicial, João hospedou o filme, ganhador do prêmio especial do Festival de Cannes de 77, em um provedor estado-unidense. Vale a pena baixar e conferir mais esse documentário realizado pelo ícone do Cinema Novo.

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Quinta-feira, Junho 03, 2004

DOIS POEMAS

[Wir Caetano]


O pensamento respira:
entranhar um coração
no coração da pupila

dar
o corpo
ao corpo da imaginação

**


mordem
sua pupila

as presas
de minha antilira

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Quarta-feira, Junho 02, 2004

DEPOIS DO FUTEBOL, ELAS...

Foto: Daniela Goulart

[do Balaio]

Na noite de hoje, a Seleção Brasileira enfrentará, no Mineirão, os vizinhos "hermanos" com todos os "R's" que tem direito, carecas e cabeludos. Pô, 22 homens no gramado. Depois, a festa vai correr solta é no "Baixo Belô", onde 15 "meninas" vão desfilar pela passarela do Hotel Montanhês na eleição da "Miss Guaicurus". Terá também a escolha das misses "Vadia", "Simpatia" e "Bumbum Mais Gostoso". O evento marca o Dia Nacional da Profissional do Sexo, 2 de junho, e é organizado pela Associação das Profissionais do Sexo de Belo Horizonte, para onde será revertida a renda. Se ligue aí!

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