Quinta-feira, Setembro 30, 2004

SORO SONORO: música, poesia, pessoas & adjacências...

[Renato Negrão]

Guilherme Rodrigues,


já publicado no armengue, é um dos homenageados
do psiu poético deste ano. Segue agora mais dois de sua lavra:::

POEMA PÓSTUMO DO AGORA-FÓSSIL


Quando eu morri
um anjo douto da
academia paleontológica de literatura
disse sorrindo: - Vamos aos estudos.

E meu corpo inerte,
que já não pode saltar do papel
é sufocada sob o sudário.
No papel-ofício um oficial de letras
fossializa o não-mais-míssil.

Fazem seu o papel,
marcando com teses pré-cozidas
o que não acena - é neutro na experiência.

INDEX


índex -
uma fita para línguas
prestes à fruta ácida e desejada.

índex.
unhex para unhas ferozes
de dedos daninhos.
hímex - inviolável,
proibido ao pênix piado.

limítrofe. a barra empata.
por tão pouco e nada.

o que há por trás dessa mata?
o que temer por essas estrofes?

por tão pouco e nada:
- há pernas proibidas,
matas que não se pode! -
diz o dedo à minha cara.

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Quarta-feira, Setembro 29, 2004

SORO SONORO: música, poesia, pessoas & adjacências...

[Renato Negrão]

Saiba

Arnado Antunes

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Saddam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao-Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Gandhi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

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Quinta-feira, Setembro 16, 2004

ARTIMANHAS DA HISTÓRIA

Reprodução

A Terra de Cocaina (detalhe), pintura de Peter Brüegel

[Regis Gonçalves](*)

Todo mundo morre. Picasso morreu. Frank Sinatra também morreu. Até Ronald Regan passou desta para melhor, pois ninguém pode estar numa boa aos 93 anos, ainda mais sofrendo do mal de Alzheimer. E o Roberto Marinho então, que alguns supunham empalhado há muitos anos na sala da diretoria da Rede Globo?

Por que Brizzola também não poderia morrer? O bater de botas do velho e astucioso caudilho (expressão de que ele não gostava, se empregada a respeito dele próprio) ensejou análises ''inteligentes'' associando-o ao fim de uma era, qualquer era: a getulista, a populista, o próprio século 20.

A periodização da história é sempre um risco. Seja pela precariedade dos critérios, que nunca podem delimitá-la de forma correspondente ao espaço de uma série estatística, seja por sua própria arbitrariedade. Corremos o risco de ver a história repartida em blocos, o que se por um lado pode ter algum valor heurístico, por outro engessa o fluxo dos acontecimentos, pontuando-o de datas e fatos determinantes e súbitos cortes histórico-temporais.

A arte talvez nos ajude a compreender melhor essa arbitrariedade. Quando acabou a Idade Média e começou o Renascimento? Na obra de Pieter Brüegel, podemos encontrar uma sutil representação do fluxo ininterrupto da história, do entrelaçamento de fatos e acontecimentos presididos por idéias e mentalidades pertencentes a matrizes diversas num mesmo recorte temporal.

Brüegel, o velho, retratou os resíduos de uma Idade Média agonizante em plena emergência da Renascença, quando a burguesia mercantil vitoriosa, aspirando ao enobrecimento, se fazia retratar pelos mais famosos pincéis da época. Annateresa Fabris estudou em seu livro Identidades Virtuais esse ''uso honorífico do retrato, isto é, à representação da identidade burguesa, que se inspira nos modelos pictóricos anteriores para construir uma imagem teatral e encomiástica de si''.

Tal manifestação de orgulho de classe propiciou, entre outras conseqüências, o nascimento da poderosa escola flamenga de pintores, beneficiária do mecenato burguês, e uma amostra disso está à disposição de quem se interessar no filme ''Moça com brinco de pérola'', em cartaz na cidade, que ilustra brilhantemente a atmosfera de avidez e prosperidade da Holanda no século 17.

A pintura de Brüegel, ao contrário de seus endinheirados contemporâneos, capturava as cenas de rua, os mercados e as festas, as lendas e os provérbios populares, fortemente impregnados pelo imaginário medieval, com suas alucinações e utopias (confira-se o seu famoso ''A Terra de Cocaina''). Dessa mesma ótica ''reacionária'' Balzac retratou dois séculos depois as entranhas da burguesia francesa e Giuseppe di Lampedusa, no clássico ''O Leopardo'', a transição italiana para a modernidade.

Voltemos ao velho Briza, contemporâneo desses dois brasis cujas fisionomias se entrelaçam na sua figura agora solenizada pela morte. Caudillho urbano que era, sobrevivente do legado varguista, ele se retira de cena 50 anos depois de seu ícone e modelo. Vargas e o varguismo ponturam a vida social brasileira de símbolos que ainda sobrevivem no imaginário popular e nela talvez ainda persistam por longo tempo, em convivência pacífica ou conflituosa com os traços dominantes de nossa ''modernidade''. Algo que os sociólogos já chamaram ''contemporaneidade do não coetâneo''. Resta-nos saber onde está o Pieter Brüegel que será capaz de traduzir artisticamente o que ainda está obscuro ao nosso olhar cotidiano.

(*) Regis Gonçalves é jornalista, poeta e cronista. Tem três livros publicados e dois inéditos (poesia), um deles, "Candongas d'Amores", a sair este ano pela editora Ciência do Acidente. Vive em Belo Horizonte.

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Terça-feira, Setembro 14, 2004

ABRE CAMINHO PARA O POETA-EXU-FELINO

Antônio Sérgio Moreira/Jaguadarte


[George Cardoso]

a calçada do castelo da rua da Bahia estava cheia naquela noite, lá pelos idos de 2000 (acho), dia de semana. fui a convite duma prima, a atriz Helga Baeta, assistir ao espetáculo ''Q?'' da Sociedade Lira Eletrônica Black Maria, no qual ela integrava o elenco. confesso que até então eu não tinha visto nenhuma produção multimídia como aquela, que nos minutos seguintes despertaram tantas sensações e emoções para o que há de nagô em mim. ao abrir os portões do prédio histórico, muitas moças lindas, trajadas como ayabás e empunhando no colo tambores, começaram a subir as escadarias do Centro de Cultura Belo Horizonte. o público foi atrás, acompanhando atento, o espetáculo já havia começado. dois outros artistas aguardavam no palco. no fundo, comandando a programação musical e efeitos visuais'sonoros, estava Gil Amâncio, grande mago musical desta terra alterosa. em dado momento da apresentação surge um cara de boné, com uma voz marcante de dicção cristalina, armado c'uma poética felina e desafiadora, recitando entre muitos poemas um de Gregório de Matos sobre a Cidade da Bahia, em pleno pulmão boêmio de Beagá. ali, senti mais próximas a terra que me gerou e a terra que me acolheu. a poesia fazia a conexão ''Belô-Pelô''. os janelões do castelo estavam escancarados, o que me causou a impressão que toda cidade naquele momento escutava as palavras de Ricardo Aleixo, o poeta de boné, de quem passei a ter grande admiração a partir daquele dia. nunca me esqueci daquela cena que me revelou que Belo Horizonte possui artistas de uma grandeza desmedida. hoje, 14 de setembro, Ricardo Aleixo comemora mais um ano entre os humanos e, para meu imenso prazer e alegria, o Rique hoje é um dos meus mano'amigos. salve o poeta-exu-felino! laroyê!

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Segunda-feira, Setembro 13, 2004

POEMA

[Wir Caetano]

POESIA PRA NINGUÉM
EU, HEIN!

PRA MIM BIM BOM É PRO BEM


(aguardem resenha minha sobre o livro "Os dois primeiros e um vago lote" do armengueiro Renato Negrão)

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Terça-feira, Setembro 07, 2004

SORO SONORO: música, poesia, pessoas & adjacências...

[Renato Negrão]

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-dágua
Pra me contar históricas
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

(Manuel Bandeira)

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